A infame Noite dos Cristais, prenúncio do Holocausto, completa 80 anos

Há exatos 80 anos, em 9 de novembro de 1938, punha-se em marcha, na Alemanha e na Áustria, a “Kristallnacht”. O pogrom nazista organizado contra a comunidade judaica é assim chamado pelos cacos de vidro das vitrines de lojas e vitrais de sinagogas destruídos naquela noite pela turba. Sinagogas, casas comerciais e residências de judeus foram invadidas e seus pertences destruídos. O evento é visto por vários historiadores como o prenúncio do Holocausto, que causou a morte de seis milhões de judeus na Europa até o final da Segunda Guerra Mundial. A Noite dos Cristais foi uma represália organizada pelo governo nazista ao assassinato do diplomata nazista Ernst von Rath, em Paris, por Hershel Grynszpan, jovem judeu polonês, cuja família havia sido expulsa da Alemanha em 1938. O diplomata foi baleado dentro da embaixada alemã, em 7 de novembro. Foi socorrido, mas morreu dois dias depois. Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Adolf Hitler, pretendia fazer do caso uma evidência da “guerra que os judeus travavam contra o 3º Reich”. A morte de Von Rath ocorreu no mesmo dia em que os nazistas comemoravam o 15º aniversário do Putsch de Munique, a primeira tentativa do partido de chegar ao poder, e que tornou Hitler conhecido na Alemanha. Tratava-se de uma das datas mais importantes no calendário nazista. Discursando na mesma cervejaria em Munique de onde Hitler e seus comparsas partiram para tentar dar o golpe em 1923, Goebbels incitou os dirigentes do partido e das SS (a tropa de choque do Partido Nazista) a vingar o assassinato de Von Rath e atingir os judeus.

O principal organizador dos ataques foi Reinhard Heydrich, chefe dos serviços de segurança do partido nazista (e que mais tarde comandaria a aplicação da Solução Final). Heydrich deu ordens para que os soldados da SA se vestissem à paisana, para que o movimento parecesse espontâneo. Em apenas uma noite, 91 judeus foram mortos, 30 mil foram presos e enviados a campos de concentração. Quase 8 mil lojas e comércios pertencentes a judeus e mais de 200 sinagogas na Alemanha e na Áustria foram destruídas. Não bastasse a violência, o governo nazista cobrou da comunidade judaica uma indenização de 1 bilhão de marcos pela destruição causada pelos seus próprios agentes. A selvageria e brutalidade do ataque assustou a opinião pública mundial na época e causou uma onda de emigração judaica. Grynszpan, o jovem que matou Von Rath, ficou sob custódia das autoridades francesas até 1940, quando foi entregue à Gestapo após a invasão da França pela Alemanha. Seu destino exato é desconhecido. Em 1960 o governo da então Alemanha Ocidental o declarou “legalmente morto”. Suspeita-se de que tenha morrido em uma prisão nazista entre os anos de 1944 e 1945.

Lembrar a Kristallnacht e todas as odiosas políticas genocidas do governo nazista é fundamental no momento em que o mundo dá uma guinada à direita e em que o antissemitismo cresce. É nosso dever não só honrar a memória daqueles que morreram e sofreram mas zelar para que fatos como os acontecidos em 9 de novembro de 1938 não voltem a acontecer.