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A infame Noite dos Cristais, prenúncio do Holocausto, completa 79 anos. Conheça a história

09 Nov 2017 | 11:14
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Sinagoga arde em Berlim, na Noite dos Cristais. Foto: Divulgação
 

Por Sérgio Campregher, historiador

"Em 7 de novembro de 1938, um polonês de 17 anos de idade, Herschel Grynszpan, crescido na Alemanha, descobriu que seus pais estavam entre os deportados da Alemanha para a Polônia.  Grynszpan, que estava em Paris, conseguiu um revólver e marchou para a embaixada alemã, onde atirou no primeiro diplomata que encontrou: um oficial subalterno chamado Ernst vom Rath, que ficou gravemente ferido e foi levado para o hospital.

A atmosfera política no início de novembro de 1938 já estava pesada com a violência antissemita, à medida que o regime nazista e seus seguidores mais ativos intensificavam a pressão sobre os judeus da Alemanha para que emigrassem. Não é de surpreender que Goebbels decidisse transformar o incidente em um grande exercício de propaganda. No mesmo dia, instruiu a imprensa a dar espaço de destaque para o incidente em suas reportagens.


APOIO DAS SS E GESTAPO

O episódio teria que ser descrito como um ataque da “judiaria mundial” ao Terceiro Reich, o que acarretaria as “mais pesadas conseqüências para os judeus da Alemanha”. Foi um convite claro para os fiéis do Partido agirem.

Goebbels instruiu o chefe regional da propaganda no estado de Hessen a lançar ataques violentos às sinagogas e aos prédios da comunidade judaica, para saber se um pogrom (*) mais abrangente era viável.

Enquanto as tropas de assalto lançavam-se à ação, a SS e a Gestapo eram aliciadas para dar apoio. Em Kassel, a sinagoga foi arrasada por camisas-pardas. Em outras cidades de Hessen, bem como na vizinha Hannover, também houve ataques e tentativas de incêndio contra sinagogas e residências da população judaica. Os atos de violência expressaram, declarou a imprensa orquestrada em 9 de novembro, a “raiva espontânea” do povo alemão contra o ultraje em Paris e seus instigadores.


OPINIÃO INTERNACIONAL ADOÇADA

Em contraste, o assassinato de um funcionário regional do Partido, Wilhelm Gustloff, por David Frankfurter, um judeu, em fevereiro de 1936, não gerou nenhum tipo de reação verbal ou física violenta do Partido, seus líderes ou membros, devido ao interesse de Hitler em manter a opinião internacional adoçada no ano das Olimpíadas. E mostrou que o atentado em Paris foi um pretexto para o que se seguiu, não a causa.

Coincidentemente, quando Grynszpan disparou seu tiro em 7 de novembro de 1938, Hitler era esperado em um encontro de líderes regionais do Partido Nazista e outros membros decanos do movimento em Munique no dia seguinte, véspera do golpe fracassado de 1923. Notavelmente, ele não mencionou o incidente em Paris no discurso; era evidente que estava planejando a ação seguinte à morte de vom Rath.


ATAQUE MACIÇO

Ao anoitecer de 9 de novembro, enquanto líderes do partido deslocavam-se para o salão principal da prefeitura de Munique, Hitler foi informado por seu médico pessoal, Karl Brandt, que assistia a vom Rath em seu leito parisiense, da morte do funcionário da embaixada. A notícia chegou não só a ele, mas também a Goebbels e ao Ministério das Relações Exteriores no final da tarde de 9 de novembro. Imediatamente, Hitler emitiu instruções a Goebbels para um ataque maciço e coordenado aos judeus da Alemanha, combinado com a detenção de todos os homens judeus que fossem encontrados e seu encarceramento em campos de concentração.


FRAUDE TEATRAL

Era a oportunidade ideal para intimidar ao máximo os judeus, por meio de uma explosão nacional aterrorizante de violência e destruição, para que deixassem a Alemanha.

A morte de vom Rath também proporcionaria a justificativa de propaganda para a expropriação final e total dos judeus da Alemanha e sua completa segregação do resto da economia, sociedade e culturas alemãs.

Tendo tomado essas decisões, Hitler concordou com Goebbels que elas deveriam ser apresentadas aos fiéis do Partido, em um ato calculado de fraude teatral, como uma reação no calor do momento ao assassinato de Vom Rath, tomada em um espírito de choque e raiva súbitos.

As instruções verbais do líder da propaganda do Reich foram entendidas pelos líderes do Partido Nazista de que não deveriam aparecer publicamente como organizadores das demonstrações da violência contra os judeus, mas que deveriam coordená-las e levá-las a cabo. As instruções foram imediatamente retransmitidas por telefone para grande parte dos camaradas do Partido em seus escritórios regionais.


TELEX

Nas sedes regionais do Partido, os funcionários telefonaram para comandantes das tropas de assalto e ativistas partidários das localidades, repassando à cadeia de comando a ordem para queimar sinagogas e depredar lojas, casas e apartamentos judaicos. Quando Hitler e Himmler encontraram-se nos aposentos do primeiro, pouco antes do tradicional juramento dos recrutas da SS, à meia-noite, discutiram rapidamente o pogrom.

Como resultado, foi emitido outro comando central, dessa vez mais formal, por telex. Partiu de Heinrich Müller, subordinado de Himmler e chefe da Gestapo, a ordem pessoal de Hitler - para comandantes de polícia alemães de todo o país - da detenção de um grande número de judeus.

Isso foi registrado por Goebbels em seu diário particular no dia seguinte,

Ações contra judeus, em particular contra suas sinagogas, ocorrerão muito em breve em toda a Alemanha. Elas não devem ser interrompidas. Entretanto, devem ser tomadas medidas em cooperação com a Polícia da Ordem para se evitar saques e outros excessos especiais... a detenção de cerca de 20 mil a 30 mil judeus do Reich deve ser preparada. Sobretudo judeus de posses devem ser escolhidos.

Um telex adicional enviado por Heydrich na madrugada mandou a polícia e o serviço de segurança da SS não ficar no caminho da destruição de propriedade judaica ou impedir atos violentos contra judeus alemães; também advertiu que a pilhagem não devia ser permitida, estrangeiros não deviam ser tocados, mesmo que fossem judeus, e deveria se tomar cuidado para garantir que prédios alemães perto de lojas ou sinagogas judaicas não fossem danificados. Deveriam ser detidos tantos judeus quanto coubessem nos campos de concentração.


AÇÃO COORDENADA

Posteriormente um telegrama assinado por Reinhard Heydrich foi enviado a vários escritórios, coordenando as ações da policia com o Partido Nazista.

Às 2h56 da madrugada, um terceiro telex, emitido por instigação de Hitler pelo gabinete de seu assessor, Rudolf Hess, reforçou o último ponto, acrescentando que havia sido ordenado “do mais alto nível” que não deveria ser ateado fogo às lojas judaicas devido ao perigo para os prédios alemães vizinhos.  A essa altura, o pogrom  estava em pleno andamento.

As ordens iniciais via telefone de Munique para os funcionários dos líderes regionais foram rapidamente transmitidas ao longo da cadeia de comando. Além das sinagogas, camisas-pardas e SS também miraram lojas e prédios judaicos. Quebraram as vitrines, deixando o pavimento no lado de fora coberto com uma grossa camada de vidro quebrado, Com seu "humor" característico, o povo de Berlim logo começou a se referir a 9-10 de novembro como a “Noite dos Cristais do Reich”, ou a “Noite dos Vidros Quebrados”. Mas os camisas-pardas destroçaram mais que vitrines de lojas: invadiram prédios judaicos por toda a parte, destruíram o que havia no interior e saquearam o que podiam. Depois, rumaram para as residências de famílias judaicas, com o mesmo intento.


ÓDIO VISCERAL

A violência extrema e deliberada e a humilhação degradante impostas as judeus durante o pogrom eram familiares em função do comportamento dos camisas-pardas nos primeiros meses de 1933.

Mas dessa vez foram muito mais longe, nitidamente mais abrangentes e mais destrutivas. Demonstraram que o ódio visceral aos judeus a havia se apoderado não só dos camisas pardas e dos ativistas radicais do Partido, mas também e acima de tudo – mas não apenas – dos jovens, sobre quem cinco anos de nazismo nas escolas e na Juventude Hitlerista haviam tido um efeito evidente.

O Ministério da Propaganda de Goebbels não perdeu tempo em apresentar esses eventos ao mundo como uma explosão espontânea de raiva justificada  do povo alemão. “O golpe desferido em nós pela judiaria internacional”, disse a Folha Diária de Notícias de Göttingen (Göttingen Tageblatt) a seus leitores em 11 de novembro de 1938, “foi poderoso demais para que nossa reação fosse apenas verbal. A fúria contra o judaísmo represada durante gerações foi desencadeada. Os judeus podem agradecer a seu companheiro racial Grünspan (ou seja Grynszpan), aos mentores espirituais ou reais dele e a si mesmos por isso”.


MANIPULAÇÃO DOS FATOS


Contudo, o jornal garantiu aos leitores que “os judeus foram bastante bem tratados no curso dos acontecimentos”. Ainda mais descaradamente, o Ministério da Propaganda instruiu os jornais de 10 de novembro de 1938 a informar que “vidraças foram quebradas por ali e aqui; sinagogas pegaram fogo por si ou irromperam em chamas de alguma forma”. Goebbels insistiu que as histórias não deviam ganhar muito destaque  na imprensa, que era lida também fora da Alemanha, e que não devia haver fotos dos estragos.  Em 11 de novembro de 1938, o jornal nazista o Observador Racial atacou a hostilidade da imprensa estrangeira - basicamente judaica -  contra a Alemanha por reagir em demasia contra o pogrom, desprezando as reportagens como mentiras. “A reação espontânea do povo alemão ao assassinato covarde de Von Rath veio de um instinto saudável” declarou Goebbels.  O governo, concluiu, tinha feito tudo em seu poder para deter as manifestações, e o povo havia obedecido.  A Alemanha e os alemães não tinham nada de que se envergonhar.

Para muitos observadores estrangeiros, os eventos de 9 e 10 de novembro de 1938 de fato foram um ponto de virada em sua avaliação do regime nazista".


*Pogrom - ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos).

Fonte: “O Terceiro Reich no Poder”, Richard J. Evans (Editora Planeta do Brasil, 2011)





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