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Escritor israelense Aharon Appelfeld falou sobre literatura, política e terrorismo em entrevista ao professor Krausz

05 Jan 2018 | 13:35
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Considerado uma das principais vozes da literatura hebraica do século 20, o escritor israelense e sobrevivente do Holocausto Aharon Appelfeld, que morreu ontem aos 85 anos, concedeu, há 4 anos, entrevista ao professor Luis Sergio Krausz - professor Doutor em Literatura Hebraica e Judaica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP - e a Naamá Silverman Forner - Doutora pelo programa de pós-graduação em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas da USP -, cujo texto foi publicado nos Cadernos de Língua e Literatura Hebraica pelo Centro de Estudos Judaicos da USP. Na entrevista, Appelfeld falou sobre literatura, política e terrorismo. Leia a seguir trechos da entrevista:

Na cultura judaica, a memória ocupa desde sempre um lugar singular. E, no entanto, a cultura israelense construiu-se, por muito tempo, sobre uma ruptura com a memória do judaísmo diaspórico. Qual é o lugar da memória na cultura israelense hoje?

“Hoje a memória ocupa um lugar legítimo. Antes este tema era um tabu. Hoje não há mais, em Israel, uma vida ideológica como havia nos anos 1950, 1960”. Lembro-me que, em minha juventude, estava andando na rua com um parente, e falava com ele em alemão. Um senhor de aparência muito respeitável nos interpelou e advertiu-nos: “Um hebreu deve falar hebraico!” O ideal da sociedade era o membro de um Kibutz. Isto era pertencer à elite. Se você não estivesse no Kibutz, já era, necessariamente, de segunda categoria. Graças a Deus hoje as memórias são outra vez consideradas legítimas. Cada qual tem a sua vida. Veja o que aconteceu com os imigrantes russos: hoje vivem em Israel cerca de um milhão de russos, e eles falam russo entre si, e fazem questão de ensinar o russo aos seus filhos. Mesmo a nova geração, que nasceu aqui, fala russo. Eu me ocupo com a memória particular. Não me interessa a memória coletiva.  E me ocupo, sobretudo, com a memória dos judeus assimilados. À época da minha imigração, havia duas coisas que eram consideradas impuras em Israel: a primeira, os judeus religiosos; a segunda, os assimilados. Ambos eram criticados pela ideologia hegemônica. Ambos são o tema da minha literatura. Tenho uma afinidade de alma com os judeus assimilados da Europa Central. Minha cidade natal, Czernowitz, era uma cidade muito culta, onde havia dois colégios onde se estudava latim e grego, e uma grande universidade, com estudos germanísticos. A comunidade judaica era relativamente pequena, com cerca de 40.000 pessoas, mas eram pessoas muito cultas. Só pude frequentar o primeiro ano da escola em Czernowitz, mas talvez isto já seja alguma coisa.

Muitos escritores israelenses, sobretudo os que recebem mais atenção da mídia, estão   o tempo todo falando sobre política. Como é, para o Sr., a relação entre política e literatura?

“Política e literatura, assim como psicologia e literatura, sociologia e literatura, não é uma boa combinação. A pergunta é o que buscamos por meio da literatura. A literatura deve ser uma ilustração de um artigo jornalístico? Ou procuramos outra coisa? Quanto a mim, a literatura é um caminho para um mundo interior, não procuro sociologia e nem política”.

O senhor se sente seguro em Israel?

“O homem não está seguro em parte alguma. Em Nova York? Em Londres?  Em Paris? Quem pode dizer que se sente seguro nesses lugares? Claro que eu tenho minha bagagem. Eu fui arrancado de meu lar aos 8 anos de idade. Minha mãe foi assassinada. Fui separado de meu pai. Esta foi minha infância. Como posso me sentir seguro? O mundo não é um lugar seguro”. Nascido na Romênia antes da ascendência do nazismo, ele perdeu a mãe nos assassinatos em massa durante a Segunda Guerra, e só reencontrou o pai 20 anos depois. Appelfeld perdeu seu lar e sua família aos oito anos de idade, quando sua cidade foi tomada pelos nazistas. Sua mãe foi assassinada; ele e o pai foram deportados para um campo de trabalhos forçados, onde chegaram depois de dois meses de marcha pela Ucrânia. “Meu pai era um homem forte”, conta Appelfeld, “e ele me carregava nos ombros dia após dia. Não fosse por isso, eu, um menino de oito anos de idade, não teria sobrevivido”. Ao longo desta marcha, Appelfeld viu morrerem muitas dezenas de crianças, velhos e adultos. No campo, o pai era levado para trabalho escravo, todos os dias. Certo dia, resolveu fugir e conseguiu escapar. Sobreviveu à guerra da maneira mais improvável, escondendo-se em florestas, junto com um bando de ladrões de cavalos.





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