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Jerusalém, 30 dias depois

05 Jan 2018 | 15:25
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O cientista político Jorge Zaverucha escreveu artigo na Folha de S.Paulo nesta sexta (5) sobre a decisão dos Estados Unidos de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, desfazendo mitos e destacando que a medida já havia sido aprovada pelo Congresso americano em 1995. Veja a seguir a íntegra do artigo:

Passaram-se 30 dias desde que o presidente americano Donald Trump anunciou, em 6 de dezembro, a remoção da embaixada de seu país para Jerusalém. Na verdade, em 1995, o Congresso dos EUA aprovou o traslado da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. Durante a campanha presidencial, Trump prometeu que, em sendo vencedor, colocaria em prática, rapidamente, a decisão do Congresso. Pode-se discordar ou não de sua atitude, mas ninguém há de negar que ele foi responsivo para com seus eleitores. A transferência foi um ato simbólico. De prático pouco foi alterado. Trump deixou claro que as futuras fronteiras da cidade serão acordadas via negociações entre palestinos e israelenses. Alegou que a transferência da embaixada fará parte de um novo plano de paz a ser apresentado. Ele espera não repetir erros dos seus antecessores, que levaram ao impasse das várias negociações de paz na região. Como almeja fazer isso, ainda não se sabe. Mesmo assim, houve uma saraivada de prognósticos catastrofistas após o anúncio de Trump, que não se concretizaram. Vejamos:

1) Trump é um piromaníaco e levará à eclosão de uma nova intifada: falso. Não ocorreu qualquer intifada. Apenas algumas escaramuças em Gaza e na Cisjordânia, insufladas pelo Hamas, organização que prega em seu estatuto a destruição de Israel. Jerusalém manteve-se calma, mesmo sendo habitada por 35% de árabes. Inclusive, a cidade bateu o recorde de turistas que lá foram passar os festejos natalinos;

2) O mundo árabe irromperá em chamas: falso. Egito e Jordânia, por terem acordo de paz com Israel, ficaram quietos. A Arábia Saudita, que nunca esteve tão perto de um reconhecimento mútuo com Israel, mediado por Trump, também ficou silente. Riad precisa de ambos para conter a ameaça iraniana. Idem para outros países do Golfo. A Síria, esfacelada, não tinha o que dizer. O país que mais deu apoio à causa palestina foi o Iraque. Curiosamente, o governo iraquiano acabou de sancionar uma lei retirando dos palestinos lá residentes o direito a educação livre, saúde pública e documentos de viagem; proibiu-os, ainda, de trabalhar em instituições estatais. Isto é apartheid. Até a morte de Saddam Hussein (1937-2006), cerca de 40.000 palestinos moravam no Iraque. Hoje, são 7.000;

3) Os EUA perderam a condição de mediar a desejada, mas cada vez mais difícil, paz entre palestinos e israelenses: falso. Enquanto o presidente da Autoridade Palestina vociferou contra os EUA, seu ministro de Relações Exteriores declarou, pragmaticamente, que não abandonará a mesa de negociações. Sabe que o único país capaz de fazer Israel negociar chama-se EUA. Rússia, China e nenhum país europeu estão interessados em substituí-los;

4) A decisão de transferência da embaixada seria ilegal, de acordo com os cânones internacionais: falso. Cada membro da ONU possui o direito de decidir qual cidade é capital de outro país. A ONU nada tem a ver com isso, pois este tema não está sob sua jurisdição. Os acontecimentos reforçam o preconizado pela recém-lançada Estratégia de Segurança Nacional de Trump, segundo a qual o conflito árabe-israelense não é mais ponto central a evitar a paz na região. Atualmente, as ameaças à quietude, sob o ponto de vista americano, provêm, primordialmente, de organizações terroristas jihadistas e da ameaça iraniana.

 





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