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Jornalista lança projetos contra o antissemitismo e a radicalização de jovens pelas redes sociais

27 Set 2018 | 13:42
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Sensibilizada com o crescimento do antissemitismo no mundo e com a situação de jovens que abandonam a família atendendo a apelos de recrutadores de grupos extremistas, a jornalista Beatriz Buarque resolveu criar projetos nas redes sociais para conter a radicalização e a propagação do discurso de ódio. Beatriz envolveu-se com os temas quando fez um curso em Israel sobre conflitos no Oriente Médio, em 2015. No ano passado, ela criou o projeto de antirradicalização Words Heal the World (palavras curam o mundo) e agora se prepara para lançar uma série de ações nas redes sociais contra o antissemitismo. Em entrevista exclusiva à Conib, ela falou sobre esses projetos:

1. Como serão as ações contra o antissemitismo que você pretende lançar?

Na verdade, irei lançar essa ação no início de outubro. Uma aluna da Universidade de Westminster, no Reino Unido, entrevistou uma estudante argentina que está com uma campanha na internet para levantar fundos para ir à Polônia e conhecer as raízes de sua família que acabou sendo assassinada durante o Holocausto. Essa ação vem justamente para combater o discurso de negação do Holocausto uma vez que deixa evidente o vazio provocado pelo genocídio de mais de 6 milhões de judeus. Tenho visto muitos vídeos circulando na internet alimentando esse discurso de negação do Holocausto e precisamos ser inteligentes para combater isso. Compartilhar esses vídeos é um erro porque reverbera a mensagem extremista. O que precisamos fazer é mostrar que, sim, o Holocausto existiu e até hoje seus efeitos são sentidos na vida das pessoas.

2. Como foi o curso que fez em Israel, em 2015, sobre conflitos no Oriente Médio?

Costumo dizer que esse curso mudou minha vida para sempre e serei sempre grata à Embaixada de Israel por ter me proporcionado essa oportunidade. Antes de 2015 eu não tinha o menor interesse por temas internacionais e relacionados ao Oriente Médio. Após esse curso voltado a jornalistas latino-americanos e desenvolvido para nos dar um panorama sobre os conflitos no Oriente Médio, minha vida mudou. Ali eu passei a ter consciência sobre o modo profissional com que grupos terroristas estavam produzindo propaganda, recrutando milhares de jovens no mundo todo, e voltei para o Brasil decidida a estudar sobre o assunto de modo a desenvolver alguma estratégia no futuro. Tentei cursar o mestrado no Brasil, mas a vida quis que eu fosse para o Reino Unido e no meio do caminho eu decidi agir mais diretamente contra o extremismo, criando o Words Heal the World. Se eu não tivesse ido a Israel, nada disso teria acontecido. Por isso, sou imensamente grata por essa oportunidade.

3. Como é feito o seu trabalho de antirradicalização na internet? Tem a medida do alcance?

O Words Heal the World é o único projeto no mundo que coloca os jovens como principais atores no desenvolvimento de mensagens de combate ao extremismo na internet. Ele foi criado de modo que beneficia os jovens, universidades e organizações que usam as palavras para combater a radicalização / extremismo. Esse trabalho se dá assim: estimulamos o desenvolvimento critico e a criatividade dos alunos, que escrevem matérias sobre relatórios acadêmicos (tornando esse conteúdo mais interessante), fazem vídeos, campanhas nas mídias digitais e produzem documentários sobre temas relacionados ao extremismo.

Começamos com 5 organizações parceiras em 2017 e hoje temos 22 no mundo todo e elas se beneficiam porque os alunos escrevem matérias sobre o trabalho delas e pensamos em campanhas em parceria – tudo para ampliar a visibilidade dessas organizações, principalmente, entre os jovens. O trabalho de antirradicalizacao se da principalmente na internet (em múltiplas plataformas digitais) e agora também estamos começando a organizar eventos para ampliar o engajamento com a sociedade civil. Em um ano, nosso site teve mais de 70.000 visitas e os países que mais acessam nosso conteúdo são Reino Unido, Estados Unidos, China e Niger. A página principal no Facebook está quase atingindo mil seguidores e o que é mais fascinante nesse trabalho é o poder inspirador dele. Ao perceberem que podemos sim usar as mídias sociais para a paz, pessoas e organizações começaram a nos procurar para contribuir com nosso trabalho ou fazer parte do Words Heal.

Tenho pelo menos dois exemplos a citar: após assistir a uma live na nossa página no Facebook na qual um aluno da Somália desconstruiu o mito de que o Islã prega a violência, Ahmed Patel – cunhado de um dos envolvidos no atentado em Londres em 2005 – nos enviou uma mensagem dizendo que gostaria de compartilhar sua história com a gente para mostrar que a família de radicalizados muitas vezes não compactua com a ideologia extremistas, mas acaba sendo estigmatizada pela sociedade. Uma de nossas alunas escreveu a matéria, que teve mais de mil cliques, e ela gerou um impacto positivo na vida de Ahmed porque tornou possível que ele expressasse sua dor e o problema da estigmatizacao. Outro exemplo se deu com a fundação Global Bus Foundation com sede no Marrocos. Ao saber do nosso trabalho, o fundador da ong entrou em contato com a gente para dizer que desenvolve um trabalho semelhante com os jovens do ensino médio, empoderando-os para resolver conflitos de modo pacifico. Uma de nossas alunas escreveu um artigo sobre o trabalho deles, a Global Bus Foundation acabou se juntando ao Words Heal e recentemente lançamos uma campanha nas redes sociais para celebrar o Dia Internacional da Juventude. Como você pode ver, apesar de ainda não termos dados concretos sobre a eficácia das nossas mensagens no combate ao extremismo porque o projeto é recente, já conseguimos perceber um efeito multiplicador que é muito positivo.

4. Você disse em recente matéria publicada na Folha que o seu projeto tem parceria com 22 entidades. Quais são? Entre as 3 entidades brasileiras você citou apenas uma: a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras). Quais são as outras?

Na verdade, o Words Heal possui atualmente 2 tipos de parceria: uma com organizações que usam palavras para combater o extremismo – nesse caso, nossa função é ajudar a promover as atividades delas na internet, ampliando seu alcance entre os jovens. Nesse tipo de parceria, temos 22 organizações que podem ser encontradas no nosso website através de uma busca por continente. No Brasil temos três: a Think Twice Brasil (que organiza workshops e treinamentos sobre empatia em companhias privadas e públicas), a Carlotas (que desenvolve programas sobre empatia ou outros temas relacionados ao diálogo e tolerância de acordo com a necessidade das empresas / instituições), e a Pares Caritas RJ (que dá suporte aos refugiados que chegam ao Rio de Janeiro).

O outro tipo de parceria se dá com universidades (que nos possibilitam acesso aos alunos para os estimularem a usar a criatividade para combater o ódio na internet. No momento, temos parceria com a UFRJ, University of Westminster e University of East London) e instituições como a FAMBRAS, que nos ajuda com informações sobre o Islã. Eu gostaria muito de ter também parceria com instituições que representam outras religiões porque o Words Heal não é um grupo político nem trata de apenas um tipo de extremismo. Tentei contato com organizações judaicas no exterior, mas ainda não tive sucesso. Como sou persistente, acho que iremos conseguir porque considero fundamental termos o apoio de uma organização judaica uma vez que grupos neonazistas vêm crescendo no mundo todo e precisamos mais do que nunca nos unir. Outro tipo de parceria que pretendo desenvolver agora é o patrocínio, pois temos feito isso tudo sem verba. O Words Heal está crescendo numa velocidade assustadora e não dá mais para continuar assim sem patrocínio. Com patrocinadores, poderemos ampliar nossa ação global e localmente, efetivamente inspirando as pessoas a disseminarem paz nas redes sociais, e quem sabe, quebrar o ciclo de ódio no qual estamos inseridos atualmente.

5. Na matéria da Folha você afirma que no Brasil, além da intolerância com religiões afro, outras manifestações extremistas que preocupam atualmente são o racismo, a xenofobia contra refugiados venezuelanos e o surgimento de grupos neonazistas na região Sul. Eu pergunto: Como vê esse movimento de grupos neonazistas no Sul? O seu projeto pretende focar também nesses grupos? De que forma?

Sim, iremos tratar do neonazismo no Brasil também. Ainda não pensei em uma estratégia específica, mas irei discutir o assunto com o novo grupo de alunos que irá integrar o Words Heal a partir de outubro. Acho que uma primeira ação deverá ser um seminário sobre o holocausto para informar a população sobre o assunto. Mas uma campanha nas mídias sociais também parece ser uma boa estratégia para atingir o público jovem. Não podemos de forma alguma fechar os olhos para esse movimento que está crescendo no mundo todo. De acordo com a pesquisadora Adriana Abreu Magalhaes Dias, da Unicamp, em 2013 o Brasil tinha 148 mil simpatizantes do nazismo. 148 mil naquela época!! Não é um número que pode ser descartado. Precisamos urgentemente nos unir e relembrar as pessoas sobre o que foi o holocausto e os danos que o regime nazista provocou.

6. A matéria da Folha diz que você planeja transformar o projeto em uma organização social. Como e quando fará isso?

Meu maior sonho é que o Words Heal seja abraçado por uma grande corporação que trabalha no combate ao extremismo, pois aí eu posso continuar com o trabalho criativo e contribuir com essa grande organização. Se isso não acontecer no próximo mês, irei transformá-lo em uma organização porque precisamos muito de fundos para dar prosseguimento aos trabalhos e expandir. Além do Words Heal Brasil, já estamos em contato com universidades do Niger e de Hong Kong que também querem implementar o Words Heal lá e começar a engajar os estudantes no combate ao extremismo. Como poderemos ter 3 afiliadas (Words Heal Brasil, Niger e Hong Kong) sem fundos? Não é viável.

7. Fale um pouco sobre as outras formas que atua fora da internet, como seminários que promove em escolas e eventos.  E sobre sua atuação nesse evento Diálogos pela Paz, que reuniu líderes de diferentes religiões no Rio.

O evento Diálogos pela Paz foi nossa primeira ação fora da internet. No dia 11 de setembro, reunimos representantes das religiões afro-brasileiras, do judaísmo e do islã no campus da Praia Vermelha na UFRJ para que, juntos, discutir essas questões e desconstruir os mitos usados por grupos extremistas para incitar o ódio contra essas religiões. Então, por exemplo, discutimos os mitos de que as religiões afro são demoníacas, de que o Islã prega a violência, de que os judeus controlam o mundo e de que o Holocausto nunca existiu. Os participantes foram Sergio Storch (Judaísmo), Ali Hussein (Islã) e Fabio Seabra (religiões afro-brasileiras). Considero essas ações importantes para atingir o público que não está na internet e, assim, ampliar o combate aos discursos de ódio. Minha ideia é organizar um evento desse tipo uma vez por semestre. Além disso também vou começar a dar workshops em escolas e instituições para estimular as pessoas a pensarem em estratégias para combater diferentes tipos de extremismo. Fiz uma ação como essa em Londres com jovens católicos e foi muito forte. Separei cartelas com tipos de extremismo e pedi que tirassem um papel aleatoriamente. Eu estava com um grupo de jovens brancos europeus e eles tiraram o papel com o tema racismo. Eu vi como foi difícil para eles se colocarem na pele de uma pessoa vitima de racismo ou na pele de um supremacista branco. Eles levaram quarenta minutos para desenvolver uma estratégia e saíram com uma solução maravilhosa: uma campanha mostrando casamentos inter-raciais como forma de mostrar que o amor não tem cor. Como você pode ver, ações como essa são importantes porque estimulam as pessoas a refletirem sobre o preconceito, a discriminação. Numa sociedade onde tudo é volátil, esse momento de reflexão se torna fundamental se quisermos realmente combater o ódio que está tomando conta não só da internet, mas de muitas comunidades. 

     

                                                                      

Jornalista Beatriz Buarque. Foto: Divulgação.





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