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Rabino aborda avanços do diálogo judaico-islâmico

07 Jun 2013 | 00:00
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Leia abaixo o depoimento do rabino Michel Schlesinger a respeito da 10ª Conferência sobre Diálogo Inter-Religioso, realizada em abril último, no Qatar. Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista, é o representante da Conib para o diálogo inter-religioso.

“Judeus, muçulmanos e cristãos de diversas partes do mundo se reuniram na cidade de Doha, no Qatar. O tema do encontro foi ‘Melhores práticas no diálogo inter-religioso’. Por três dias, os religiosos tiveram a oportunidade de demonstrar suas iniciativas na área da aproximação entre os diferentes grupos religiosos. 

Na abertura do evento, o professor Ibrahim Saleh Al-Naimi, coordenador da conferência e do Doha International Center of Interfaith Dialogue, proferiu sua mensagem, ao lado do padre Miguel Angel Ayuso Guixote, representante do Vaticano no encontro, e de Cláudio Epelman, diretor executivo do Congresso Judaico Latino-Americano, instituição que me convidou para este encontro. 

Depois daquele ato de abertura, grupos de trabalho se formaram. Neles, um representante de cada religião apresentava seu projeto. Em cada grupo de trabalho havia um mediador, um repórter que resumia as principais conclusões e a participação ativa do público por meio de comentários e perguntas aos expositores. 

Tive a oportunidade de apresentar o Lar das Crianças da CIP que completou, recentemente, 75 anos. A ênfase de minha apresentação foi na mudança que o Lar recebeu: passou de uma instituição construída para atender a comunidade judaica para um projeto social que presta serviço para a sociedade maior, independentemente da prática religiosas das casas de origem. 

Um muçulmano, preocupado com a islamofobia que se fortaleceu em países ocidentais desde o atentado às Torres Gêmeas nos Estados Unidos, perguntou se o Lar tem por objetivo melhorar a imagem da comunidade judaica diante da sociedade brasileira. Respondi que temos a alegria de viver em uma sociedade de muito respeito e admiração mútua no Brasil. Portanto, o objetivo do Lar é retribuir a acolhida que a comunidade judaica recebeu na cidade de São Paulo, colocando em prática princípios fundamentais do judaísmo como tsedacá, a justiça social, e ticún olam, o aprimoramento do universo. Contudo, admiti, projetos como o Lar contribuem, incidentalmente, para promover o judaísmo diante da sociedade brasileira e, embora não seja nosso objetivo principal, ficamos extremamente orgulhosos por esta consequência. 

Em alguns momentos, surgiu o tema do conflito entre israelenses e palestinos. Em cada uma destas ocasiões, foi reforçada a mensagem de que este é um conflito político e não religioso. Todos os que atribuem uma conotação religiosa ao conflito deturpam as escrituras sagradas que nos convocam, reiteradamente, a uma convivência pacífica entre os povos. Ao mesmo tempo, temos justamente nas religiões muçulmana e judaica a oportunidade, como líderes religiosos, de construir a confiança de servirá de base, um dia, para a superação das desavenças políticas. 

Outros painéis discutiram a tecnologia como ferramenta de aproximação entre as religiões, mecanismos econômicos de aproximação entre pessoas de distintas fés, premiação de projetos inter-religiosos de excelência ao redor do globo. O seminário incluiu uma visita a Mesquita Imam Muhammad Ibn Abdul Wahhab, a maior do Qatar. Em diversos momentos, membros do governo do Qatar participaram do congresso como demonstração do compromisso do país com o diálogo inter-religioso. No encontro de fechamento, os repórteres das diferentes mesas de discussão resumiram as principais conclusões. 

Desde bastante jovem, participo de encontros inter-religiosos. Meu falecido avô Hugo foi um dos pioneiros do diálogo com a igreja católica no Brasil, ao lado do padre Humberto Porto, recentemente falecido, do rabino Henry Sobel e de dom Paulo Evaristo Arns. Hoje, represento a Confederação Israelita do Brasil para o diálogo inter-religioso e coordeno a delegação judaica na Comissão Nacional de Diálogo Católico-Judaico da CNBB. 
Penso que nos encontramos em estágios opostos no diálogo com católicos e muçulmanos. Com os primeiros, tivemos dois mil anos de uma relação bastante conturbada e experimentamos, nas últimas cinco décadas, desde a convocação do Concílio Vaticano II pelo papa João XXIII e a publicação da Nostra Aetate, no papado de Paulo VI, uma aproximação vigorosa entre a Igreja e a comunidade judaica, que apenas se aprofunda e se fortalece. As perspectivas com o papa Francisco, fundamentadas na relação fraterna que manteve com a comunidade judaica portenha enquanto arcebispo de Buenos Aires, são as melhores possíveis. 

No entanto, a história com os muçulmanos é quase oposta. Desde o surgimento do islamismo, judeus e muçulmanos experimentaram momentos de cooperação e amizade que são bem representados pelo anos dourados vividos na Andaluzia espanhola, que produziram para figuras centrais do judaísmo, como Maimônides (século 12), cuja morte gerou um feriado nacional de três dias, como exemplo do quanto era querido pelo mundo muçulmano. No último século, no entanto, em função das desavenças no Oriente Médio, as relações entre judeus e muçulmanos se deterioraram. 

Há 50 anos, nosso maior desafio na área do diálogo era começar a reescrever a história das relações entre católicos e judeus. Fizemos muito neste campo e as bases são sólidas para que se faça muito mais. Hoje, acredito, o desafio está na busca de uma aproximação religiosa entre muçulmanos e judeus que crie o potencial de resgatar os séculos de entendimento e cooperação que marcaram nossa relação no passado. 
Um encontro em Doha, no Qatar, um país muçulmano que acolhe a participação de judeus para o fortalecimento da confiança e do diálogo, é um oásis de esperança neste sentido”.





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