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Especialista em contraterrorismo fala à Juventude Judaica Organizada sobre ação do Hezbollah no Brasil

26 Jun 2014 | 11:48
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André Lajst. Foto: Divulgação.

Neto de um sobrevivente do campo nazista de Sobibor, André Lajst nasceu e foi criado em São Paulo. Depois de viver em Israel por 10 meses com a idade de 17 anos, decidiu que um dia faria Aliá [emigraria].

Em 2006, tomou a decisão: deixou o trabalho com publicidade e a empresa de camisetas que tinha em São Paulo para estudar diplomacia e contraterrorismo no Centro Interdisciplinar de Herzliya, em Israel.

Em 2011, foi convocado para o Exército, onde atuou por dois anos na unidade de Inteligência da Força Aérea, como soldado acadêmico. Atualmente, trabalha em seu mestrado em Contraterrorismo, Segurança Nacional e Cyber ​​Terror, em Herzliya.

Em entrevista exclusiva, ele fala à Juventude Judaica Organizada sobre seus estudos, sobre o combate ao terror e sobre suas pesquisas sobre o tema no Brasil. Leia.


JJO - Por que escolheu Israel para viver?

André Lajst - Normalmente falo por uma hora quando me perguntam isso (risos), mas em resumo: puro sionismo e vontade de trabalhar para meu povo e meu país. Existem muitos paises-estados no mundo, porém nações que unem um povo existem poucas, e Israel com certeza foi a ideologia que mais deu certo no século 20.

Como é viver em Israel?

Eu adoro, porém já estou acostumado. Fiz Aliá há 8 anos, aos 20 anos de idade. Não deixa de ser um país com suas peculiaridades e dificuldades, porém é moderno, rico e as coisas funcionam. Há muito que arrumar, porém o que fizemos em 66 anos é um milagre.

Qual é a definição de terrorismo?

Não existe uma definição exata para terrorismo. Órgãos oficiais e universidades variam em sua definição, pois o terrorismo tem vários aspectos. A definição que uso é a mais utilizada no mundo ocidental: qualquer ação violenta que um grupo ou individuo efetue deliberadamente contra civis para atingir objetivos políticos.

Que desafios Israel enfrenta na luta contra o terrorismo?

O primeiro desafio que Israel enfrenta é o mesmo que muitos países democráticos também enfrentam. Dilemas legais que limitam ações específicas, dado o estabelecimento de leis internacionais que todo pais signatário de tratados respeita; dilemas próprios das democracias, que impedem  uma  luta mais eficiente contra terroristas. Israel tem muita experiência, pois vivemos em uma região lotada de grupos radicais, tanto nas fronteiras norte com o Líbano e Síria, como no sul, com o Egito; e também nos Territórios Palestinos. Os grupos terroristas se escondem entre civis, e isso dificulta uma atuação mais efetiva. Grupos como o Hamas sabem como usar a mídia contra Israel, e nesta guerra eles são bem mais efetivos do que na guerra de mísseis, pois já desenvolvemos maneiras de impedir que os mísseis caiam em nossas cidades.

O que podemos aprender de Israel sobre a luta contra o terrorismo?

Tecnologia, precisão e poder de detenção. Hoje em dia os grupos terroristas pensam duas vezes antes de entrar em confrontos com Israel. Somos muito mais fortes do que as pessoas imaginam, e eles sabem disso. Israel pode ensinar outros países a terem uma força aérea precisa e um serviço de inteligência efetivo. As guerras hoje são assimétricas, não há mais guerras nesta região entre países/exércitos. Nessa guerra assimétrica, Israel tem muita experiência.

O terrorismo é um problema global?

Com certeza absoluta. O Islã radical acredita no retorno do califado que dominava muitas partes do mundo na época do império otomano. Essa ideologia, na qual a Al Qaeda acredita, se espalhou lentamente entre religiosos que moram em países ocidentais e ensinam religião em centros que funcionam como base de recrutamento inicial. Este é o problema: quando o ensinamento do Islã passa a ser radical é quando o recrutamento começa. É muito difícil combater esse inimigo, pois as leis dos países democráticos os protegem. Um dos terroristas que pilotou um dos aviões que bateu no World Trade Center não era religioso, em 1999; ele foi recrutado na Alemanha, passou por este processo de estudos religiosos, foi radicalizado e recrutado. Obviamente, há centros de estudos que não são radicais e que não ensinam violência ou guerra santa.

Qual a penetração do Hezbollah e outros movimentos terroristas na América Latina?

Muito grande. O Hezbollah tem centros na Venezuela e na Tríplice Fronteira e um contato muito profundo com o cartel Zeta, do México, e por meio do tráfico de drogas arrecadam dinheiro e o enviam ao Líbano. O Hezbollah tem um budget anual de 1 bilhão de dólares - metade é enviada pelo Irã; a outra metade é arrecadada em boa parte com ações criminosas e ilícitas, principalmente na América Latina. No Brasil, o Hezbollah atua no sul, onde há mais concentração de xiitas; na Tríplice Fronteira a aplicação da lei é mais difícil. Porém, estão também em São Paulo. De acordo com minhas pesquisas, o Hezbollah ofereceu a libaneses em São Paulo 50 mil dólares para abrirem negócios na cidade, em troca de 20% dos lucros.

No Brasil, o crime de terrorismo ainda não foi tipificado; que países têm legislação que possa servir de inspiração?

Muitos países têm aprovado nos últimos anos legislação contra terrorismo. EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Paquistão. O Brasil poderia se inspirar nos vizinhos Peru e Chile, que já têm legislação antiterrorista.

Quais são as principais estratégias para se lidar com o problema do terrorismo?

É necessário ter o pulso firme. Existem vários tipos de terrorismo. Em minha opinião, é possível negociar com terroristas que não são religiosos e não têm motivação religiosa, mas política. O ETA da Espanha e os palestinos da OLP negociaram e deixaram de ser considerados terroristas. Porém, não acredito que possa haver negociação com grupos radicais religiosos. É necessário fortalecer a legislação, operar com mais afinco para encontrar aqueles que fazem o recrutamento de terroristas. Muito pode ser feito para dificultar o trabalho destes grupos, mas são necessárias muita força e muita determinação dos países ocidentais, educação de policiais e forças especiais; a única maneira de combater o terror é fazer os terroristas terem medo de atacar, pois os resultados não valerão o preço que pagarão no futuro.





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