12.01.26 | Brasil

“O silêncio da esquerda sobre a luta por liberdade no Irã”

Texto da jornalista Lygia Maria na Folha de S.Paulo desta segunda-feira (12) critica o silencio da esquerda com relação às manifestações no Irã e compara com a reação registrada nos ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. “Quando quase mil civis israelenses foram assassinados e sequestrados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, muito barulho. Em apoio aos terroristas. Um dia após o ataque brutal, centenas se reuniram em Nova York louvando a resistência do povo palestino. Um dia. No Brasil, foram três”. Leia a seguir a íntegra do texto:

O discurso antifascista e anti-imperialista de parte estridente da esquerda global é puro engodo.

Quando Vladimir Putin dizima a Ucrânia, a culpa é da vítima. Quem mandou tentar se proteger de um autocrata expansionista?

Quando quase mil civis israelenses foram assassinados e sequestrados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, muito barulho. Em apoio aos terroristas. Um dia após o ataque brutal, centenas se reuniram em Nova York louvando a resistência do povo palestino. Um dia. No Brasil, foram três. Em um mês, universidades nos EUA foram tomadas por protestos. Londres viu 300 mil manifestantes nas ruas em 11 de novembro.

Mas as iranianas que rasgaram véus e se insurgiram contra o regime teocrático islâmico, em 2022, não tiveram direito a nenhum cartaz da esquerda que vive denunciando misoginia e dominação do patriarcado.

É uma dissonância cognitiva que beira a patologia. A causa é o antiamericanismo da Guerra Fria que, aliado ao relativismo cultural pós-moderno, exclui complexidades e elege os EUA e seus aliados como os vilões da narrativa.

Assim, o silêncio de parte desse grupo ideológico sobre os protestos contra o regime dos aiatolás, que varrem o Irã desde 28 de dezembro e vêm sendo reprimidos brutalmente, não chega a espantar, mas é de se recriminar, pela incoerência e pela falta de qualquer laivo de moralidade.

Ainda não se sabe se a dimensão da revolta atual aproxima-se das gigantescas manifestações de 2009, que denunciaram fraude eleitoral e foram esmagadas.

Mas é similar num fator crucial: seus atores cruzam classes sociais e grupos minoritários. Ademais, parte deles, que iniciou a agitação, por décadas foi pilar de sustentação simbólica do regime: os comerciantes dos bazares. O que sugere erosão de uma base responsável por estabilizar o poder em momentos de crise e eleva o custo econômico e político da violência repressiva.

Agora mais do que nunca, os iranianos precisam de apoio na sua luta por liberdade —mas com essa esquerda que tem fascismo e imperialismo de estimação eles não podem contar.


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