15.01.26 | Mundo

“Revolta no Irã expõe dilema entre soberania e direitos”

Em editorial, a Folha de S.Paulo desta quinta-feira (15) analisa a situação no Irã e a reação externa à violenta repressão no país, destacando que a nota oficial do Itamaraty é constrangedora, porque “trata mortes de manifestantes, causadas por repressão brutal, como fenômeno espontâneo”. Leia a seguir a íntegra do texto:

A situação no Irã é dramática. Os protestos contra a teocracia se intensificam, e o nível de repressão é inaudito. O bloqueio da internet dificulta as comunicações, mas organizações de direitos humanos já estimam mais de 2.000 mortos. Ademais, o Judiciário iraniano anunciou que dará início a julgamentos sumários e execuções

A insurreição também representa desafio para a comunidade internacional, cujos países precisam se equilibrar entre a defesa dos direitos humanos e o respeito à soberania. A solução encontrada pelo Brasil é constrangedora.

O Itamaraty divulgou na terça (13) uma nota que tergiversa entre obviedade e cinismo. Diz que cabe aos iranianos decidir sobre seu futuro e lamenta as mortes, mas as trata como se fossem um fenômeno espontâneo, não como resultado de ações violentas das forças de segurança do país.

Não é de hoje que governos e partidos de esquerda são refratários a condenar abusos de regimes que desafiam os Estados Unidos, como Rússia, Irã, Cuba e Venezuela. Washington muitas vezes comete infrações, mas antiamericanismo não é bússola geopolítica.

Até porque há situações em que seus governantes agem corretamente. O Brasil tem muito a agradecer à gestão de Jimmy Carter, por exemplo, que não hesitou em pressionar a ditadura militar na questão do respeito aos direitos humanos e da abertura política.

Não que o dilema seja de fácil solução. O respeito total à soberania permitiria a Adolf Hitler exterminar todos os judeus na Alemanha; e a defesa inegociável de direitos levaria a intervenções militares até por erros processuais. Trata-se de cálculo complexo que deve considerar a escala de violações e níveis de intervenção.

O rol de ações inclui pressão diplomática, apoio à oposição, sanções comerciais, embargos, sabotagem, ciberataques, bombardeios e ocupação militar —estas últimas, em tese, só deveriam ocorrer com autorização da ONU.

Outro fator a considerar são as consequências. Interromper um massacre para que uma guerra civil seja instalada também é nefasto para a população envolvida.

Em relação ao Irã, as opções não soam promissoras. O regime está firme no intuito de reprimir os protestos, que percebem como ameaça existencial, e o país carece de uma oposição organizada capaz de assumir o poder.

Nenhuma ação militar americana mudaria tal cenário, e não há razões para que a população local confie nos apelos de Donald Trump por mais protestos. Ele já demonstrou, na Venezuela, que restaurar a democracia não está entre seus objetivos.


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