15.01.26 | Brasil

“Brasil não tem muito o que dizer nas crises do Irã e Venezuela”

Em artigo em O Estado de S.Paulo, o jornalista William Waack critica a política externa brasileira, especialmente nas duas crises atuais que envolvem o País, Venezuela e Irã. “A perda de liderança brasileira no seu entorno imediato veio sobretudo do antiamericanismo infantil e do clássico erro grosseiro de política externa, que é apegar-se a ‘amigos’ ideológicos. É o preço de se ignorar fundamentos das relações entre países, e a conta mais alta chama-se irrelevância relativa”. Leia a seguir a íntegra do artigo:

O Brasil tem pouco a dizer e por isso mesmo é pouco ouvido em duas crises atuais que envolvem o País, Venezuela e Irã. A voz sem eco de uma potência média com escassa capacidade de projeção do poder é um fenômeno acentuado por escolhas de um passado não tão distante.

No caso da Venezuela foram escolhas ideológicas de Lula e sua assessoria internacional. Cuba e o “socialismo do século 21” chavista exerceram sobre o núcleo duro da política externa de Lula um fascínio traduzido em apoio político e econômico – que Maduro, curiosamente, retribuiu com pontapés.

A perda de liderança brasileira no seu entorno imediato veio sobretudo do antiamericanismo infantil e do clássico erro grosseiro de política externa, que é apegar-se a “amigos” ideológicos. É o preço de se ignorar fundamentos das relações entre países, e a conta mais alta chama-se irrelevância relativa.

O caso do Irã tem a ver com o mesmo tipo de aposta ideológica, que é apoiar qualquer regime simplesmente pelo fato dele ser “anti-imperialista”. Condição hoje atendida vagamente pela sigla Brics, no qual a letra “i” é tanto de Índia quanto Indonésia e o Irã. Ou seja, países com pouco denominador em comum a não ser uma relação especial com a China, a principal potência dirigente do grupo.

Especialmente no complexo conflito do Oriente Médio, no qual o Irã figurou até há pouco tempo como a pedra ancorando o “arco da resistência”, o Brasil exerceu um tipo de indignação seletiva que o levou a silêncios constrangedores diante do que o regime dos aiatolás fez para massacrar protestos populares. Em parte, esse tipo de conduta foi mascarado por “necessidades de política comercial” – o Brasil tem exportação relevante de commodities agrícolas para o Irã.

Em certa medida trocou-se qualquer estratégia consistente de horizonte amplo pela política externa altiva e ativa de mostrar a língua para os “estadunidenses”. E falar grosso em grêmios como a Unasul ou a Celac, organizações que carecem de dentes.

Lula e sua assessoria internacional jamais tiveram um projeto “de País”, em termos de inserção internacional. Alimentaram sempre o que parecia adequado para um determinado nicho no espectro ideológico. Com a reintrodução da lei da selva, “cortesia” de Donald Trump, da noite para o dia viram-se diante do fato mais básico das relações internacionais: potências não tem amigos, só interesses. E geopolítica manda na economia.

Fomos chutados de um berço esplêndido diretamente para dentro de um pesadelo.


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