03.12.25 | Brasil
Em entrevista, presidente da CONIB destaca a preocupação da comunidade judaica com o aumento do antissemitismo
Em entrevista a Heródoto Barbeiro no Novabrasil, o presidente da CONIB, Cláudio Lottenberg, falou sobre o papel da pesquisa e da inovação na saúde, as parcerias internacionais do Hospital Israelita Albert Einstein e o cenário atual das relações entre Brasil e Israel. Também abordou a preocupação da comunidade judaica diante do aumento do antissemitismo e da intolerância, como consequência de declarações de personalidades públicas contra Israel, e defendeu a retomada do diálogo entre os países.
“Esses atritos são momentâneos e a relação Brasil-Israel deriva de 1948, quando o Estado de Israel foi fundado numa assembleia presidida por um brasileiro, Osvaldo Aranha. Existe um apoio inquestionável ao Estado de Israel por parte dos brasileiros. Hoje nós temos no Brasil um governo de esquerda e em Israel um governo de direita. Lamentavelmente misturou-se a ideologia frente às necessidades de relacionamento entre os dois países. O Brasil é um país que tem um papel no sentido da convivência entre os povos que é singular, nós praticamente não temos problemas aqui dentro. Israel neste momento enfrenta um cenário de confronto, e não é um confronto comum. É um confronto com grupos terroristas, o país está cercado de terroristas por todos os lados e tem de se defender. A interpretação por parte do governo brasileiro é, a meu ver, equivocada, porque mistura a questão do atual governo de direita dentro de narrativas e esse cenário evidentemente cria um desconforto nas relações. Israel por outro lado também teve movimentos que, a meu ver, foram exagerados. Não precisava colocar a posição do presidente do Brasil da forma como foi colocada. Como se sabe, na vida um mal-entendido daqui e outro de lá, quando não há grandeza por parte das pessoas no sentido de passar por cima de pequenos detalhes, as relações temporariamente se estremecem. E nós ficamos preocupados porque cada vez que alguma manifestação aqui no Brasil se faz contra o Estado de Israel sobe o nível de antissemitismo. E aí é uma coisa estrutural, que envolve o cenário da intolerância. Então dentro dessa perspectiva a comunidade judaica se preocupa e muito: uma coisa são as relações entre os países, que nós vamos, se Deus quiser, ver se reaquecer, se restabelecer, e outra é o cenário da intolerância. Porque isso revela um traço da sociedade que é muito ruim. Hoje é uma minoria judaica, amanhã pode ser com outro tipo de minoria. E é esse senso de responsabilidade, principalmente quando é feita qualquer tipo de manifestação, que o governo brasileiro deveria ter e retroceder e pensar algumas vezes, porque lamentavelmente isso cria um cenário muito ruim, como o que já está se criando, para a comunidade judaica brasileira”, destacou Lottenberg.
Sobre a questão diplomática, Claudio Lottenberg afirmou: “É um problema porque o Brasil está sem embaixador em Israel. Foi um fenômeno que aconteceu em função de um comportamento a meu ver equivocado por parte de um dos ministros de Israel. Não foi o governo, foi uma atitude de um ministro que chamou o embaixador brasileiro no Museu do Holocausto e, falando em hebraico, uma língua estranha para o embaixador do Brasil, fez uma série de colocações que criaram um constrangimento e o Brasil chamou de volta o diplomata. Do lado de cá, o embaixador de Israel teve seu mandato expirado e, evidentemente, para que haja uma substituição os dois países precisam querer. E, além do agrément, tem que haver uma receptividade. Quem tem que receber o embaixador é o presidente do Brasil. E, nesse caso, se ele é persona non grata ele não se sente confortável e, para Israel, o Brasil não manda embaixador. Temos que lembrar que o embaixador tem um papel simbólico, um papel efetivo, mas as ações relacionais e comerciais e as trocas acontecem num nível onde os interesses são mais objetivos: nos governos, nas áreas de Estado, na área privada. E nessa frente aparentemente isso não foi abalado. E eu espero que também no campo da representatividade nós possamos rapidamente reconquistar isso”.