04.12.25 | Brasil
“Antissemitismo na lata”
Em artigo no Ultimo Segundo, a jornalista Miriam Sanger aborda os recentes episódios de antissemitismo no Brasil e em outros países e afirma que “o velho ódio aos judeus exibe suas garras pelas ruas de São Paulo e de muitas outras cidades pelo mundo”. Leia a seguir a íntegra do texto:
A cena que descrevo a seguir poderia ter acontecido em qualquer cidade alemã nos anos 1930. (Sim, afinal mesmo antes do início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, já estavam em vigor na Alemanha as leis arianas impostas pelo governo nazista eleito democraticamente em 1933. Elas extinguiram boa parte dos direitos dos cidadãos judeus. Segregar, assediar e confrontar essa população tornou-se parte do cotidiano.)
A situação que relato agora ocorreu na semana passada em, quem diria, uma zona nobre de São Paulo.
Um casal em seus 20 e poucos anos estava sentado em um dos muitos barzinhos da Vila Madalena, bairro jovem e agitado da cidade. Um vendedor de artesanato ambulante puxava conversa com os dois. Em dado momento, ele entendeu que ambos eram israelenses e que o rapaz havia sido soldado (obrigatório em Israel). Em seguida, de forma abrupta, o vendedor o agrediu com um soco no olho, aos gritos de “genocida”. Segundos depois, uma mulher juntou-se à cena com uma cadeira nas mãos — não para conter o agressor, mas para lançá-la contra o israelense já ferido.
O casal saiu correndo do local antes que a cena se transformasse em algo muito próximo a um linchamento.
É difícil compreender em que momento se tornou impossível a um cidadão israelense frequentar livremente a noite (ou o dia, ou a tarde) paulistana. Mas constatar que é esse tipo de cena ocorre hoje, no ano de 2025, causa calafrios e muita, muita angústia.
A incompetência das instituições de ensino
E o problema não se limita às ruas. A agressão aos judeus em São Paulo também se dá em ambientes fechados e teoricamente controlados.
Na mais importante universidade federal da capital, professores judeus não conseguem manter uma rotina saudável. Todas as semanas, na porta de um deles, por exemplo, são rabiscadas mensagens com teor antissemita como “vamos quebrar os dentes dessa p. sionista”. Alunos de seus cursos são impedidos de entrar em sua sala de aula por piquetes organizados por sabe-se lá por quem — e com a autorização de quem.
Em uma faculdade centenária importante da zona Oeste da cidade, um professor judeu relata ter perdido a amizade de praticamente todos os colegas e ser confrontado por alunos nos corredores. Estudantes judeus nessas duas — e em muitas outras — instituições de ensino são ameaçados e excluídos. Não precisam ter qualquer posicionamento sobre o governo israelense ou a guerra: precisam apenas ser judeus.
Estas conceituadas instituições de ensino infelizmente se transformaram em criadouros de radicais mal-informados, que usam a violência e o assédio para manifestar suas opiniões. Ao não oferecerem suporte ou proteção suficiente a funcionários e alunos, dão uma demonstração inequívoca de incompetência naquela que deveria ser uma de suas missões primordiais: ensinar o diálogo, o respeito e a tolerância dentro da sociedade.
É uma vergonha, como diria Boris Casoy.
Assédio à luz do dia
O ataque a judeus, atualmente disfarçado sob a fachada de ataque a sionistas — lembrando que sionista é tão somente aquele que apoia a existência de um Estado judeu — não acontece apenas longe dos olhos do público. Ele ocorre também à luz do dia, em ambientes institucionais.
No dia 17 de novembro, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, André Lajst, cientista político judeu e presidente executivo da organização StandWithUs, foi impedido de participar de um evento que visava discutir os aspectos legais da guerra em Gaza. A ação partiu de um grupo de estudantes de Direito e de outros infiltrados, não ligados à instituição.
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Um editorial publicado no Estadão resumiu o ocorrido com precisão:
“O Centro Acadêmico XI de Agosto publicou nas redes sociais que repudiava veementemente a presença de André Lajst na faculdade por se tratar de um ‘notório sionista’ — como se defender a existência de Israel fosse, em si, um crime hediondo. Em outras palavras, Lajst foi impedido de falar não em razão de suas opiniões, que não puderam ser expostas, e sim em razão de ser quem é — um judeu que defende o direito de Israel de existir”.
Uma nota pessoal
Durante essa minha curta temporada paulistana, bati bate-papo com uma tia querida, historiadora formada pela USP, que lecionou História durante 50 anos. Ela é também filha de meus avós alemães, que fugiram da Alemanha em 1937 em função da perseguição racial e do medo diante das transformações que ocorriam em seu país sob o governo nazista.
Ela comentou, estarrecida: “Como filha de alguém que fugiu do antissemitismo, é difícil acreditar que eu esteja vivenciando a reedição desse capítulo. Temo pela geração dos meus filhos e dos meus netos.” Minha tia tem razão. Há de se temer (e se combater), pois já conhecemos como essa história começa — e não guardamos boas lembranças de como ela termina.
Nunca mais, uma ova.
Miriam Sanger é jornalista, iniciou sua carreira na Folha de S.Paulo e vive em Israel desde 2012. É autora e editora de livros, além de tradutora e intérprete.