08.12.25 | Brasil

“Muitas Tainaras, poucas Nayaras”

Em artigo na Revista Liberta, a ativista e mestre e doutora em Relações Internacionais Manoela Miklos destaca a brutalidade nos casos de feminicídio no Brasil. “De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, o Brasil registrou uma alta de 0,7% nos feminicídios. Oito em cada 10 vítimas de feminicídio foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, o que representa um percentual de 0,7%. Pode parecer uma porcentagem diminuta, mas os dados tornam-se assombrosos quando olhamos para as tentativas de feminicídio – ou seja, casos como o de Tainara. No ano passado, o país registrou alta de 19% no número de tentativas de feminicídio. Os dados sobre stalking também impressionam: o Brasil registrou, neste período, uma alta de 18,2% nos casos deste tipo de perseguição”. Leia a seguir a íntegra do texto:

O Brasil, tragicamente, teve que se olhar no espelho e entender quem verdadeiramente é. Quem teve coragem de olhar nosso reflexo viu a imagem assustadora de uma sociedade na qual é perigosíssimo ser mulher.

Nos últimos dias, acompanhamos os casos de Isabele Gomes de Macedo, incendiada junto dos quatro filhos pelo ex-companheiro. Em outro canto do país, Evelin de Souza Saraiva sobreviveu a uma tentativa de feminicídio perpetrada pelo ex-marido em seu ambiente de trabalho.

Mas o caso que ganhou maior repercussão foi o de Tainara Souza Santos, uma jovem de 31 anos, que teve as duas pernas amputadas em decorrência de uma tentativa de feminicídio por atropelamento. O agressor teria tido um relacionamento com a vítima e ficado enfurecido ao vê-la com outro homem.

Simultaneamente, outro caso ganhou repercussão nacional: o coach e influenciador Thiago Schutz, um ícone do movimento “red pill”, foi detido no interior de SP após denúncia de agressão contra namorada. A jovem Nayara Thibes o acusa de tentativa de estupro e diz ter escutado de Schutz que ninguém diz “não” para ele. Outras três mulheres já denunciaram o coach por ameaças.

Dados assombrosos

São histórias que dão nome e história às estatísticas. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, o Brasil registrou uma alta de 0,7% nos feminicídios. As vítimas foram, majoritariamente, mulheres negras, têm entre 18 e 44 anos e são assassinadas por conhecidos.

Oito em cada 10 vítimas de feminicídio foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, o que representa um percentual de 0,7%. Pode parecer uma porcentagem diminuta, mas os dados tornam-se assombrosos quando olhamos para as tentativas de feminicídio – ou seja, casos como o de Tainara.

No ano passado, o país registrou alta de 19% no número de tentativas de feminicídio. Os dados sobre stalking também impressionam: o Brasil registrou, neste período, uma alta de 18,2% nos casos deste tipo de perseguição.

Tainara não está sozinha, há diversas Tainaras e Evelins em todo o território nacional.

Quando olhamos para o tipo de crime do qual Thiago Schutz foi acusado, os números são ainda mais chocantes: o Brasil registrou o maior número de estupros e de estupros de vulnerável da sua história em 2024.

As vítimas são, novamente, majoritariamente negras. Além disso, aproximadamente 66% delas sofreram agressões nas mãos de familiares, parceiros ou ex-parceiros. A taxa de estupros nacional alcançou 41,2 por 100 mil habitantes, mas as cidades com as taxas mais elevadas chegaram a índices bem superiores, alcançado 130 por 100 mil habitantes.

Se há infinitas Tainaras, não há muitas Nayaras no Brasil.

Ainda de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 47,4% das brasileiras que afirmaram terem sofrido agressões nos últimos 12 meses dizem não ter feito nada diante do episódio mais grave de agressão experienciado. Dezenove vírgula dois por cento afirmaram ter recorrido a familiares, 15,2% procuraram a ajuda de amigos e 6% buscaram lideranças religiosas.

Em suma: temos cada vez mais vítimas de estupro, mas a expressiva maioria delas não recorre ao Estado quando são agredidas.

Efeito rebote

Diante do espelho, mirando nosso sinistro reflexo, precisamos nos perguntar: por que há, no Brasil, tantas Tainaras? E por que há tão poucas Nayaras?

Cada avanço do feminismo – na garantia de direitos, no mundo do trabalho, na política, nas novas narrativas de país pelas quais lutamos – costuma vir acompanhado de um efeito rebote. Uma onda de respostas contrárias. A esse empuxo reativo dá-se o nome de “backlash”: um esforço social, político e cultural para conter, deslegitimar ou reverter conquistas feministas. Entender suas raízes, os mecanismos pelos quais opera e seus efeitos é crucial para preservar direitos e avançar na defesa da igualdade.

Popularizado pela escritora feminista Susan Faludi nos anos 1990, o termo “backlash” descreve contraofensivas que não se apresentam, necessariamente, como antifeministas, mas como atos em defesa da família; como discursos de ódio, que devem ser amparadas pelo que, vulgarmente, é chamado de liberdade de expressão; como demandas por neutralidade do Estado diante de gestos de “machismo reverso”; ou como atos de “proteção dos meninos” num mundo que os tolheria demasiadamente.

O backlash não é uma crítica pontual ao movimento de mulheres: é uma dinâmica organizada, persistente, insistente e multifacetada, que tenta recolocar as mulheres em condição de subalternidade e vulnerabilidade. É um movimento que clama por restauração e retrocessos.

O movimento feminista avança em ondas, e o backlash também. Após a conquista das sufragistas pelo sufrágio universal, vieram campanhas pela “mulher no lar” – uma reação à participação das mulheres na vida pública.

Depois da segunda onda do feminismo, que se deu dos anos 1960 aos 1980, surgiram as narrativas que articulavam ideias relacionadas aos supostos “excessos” do movimento feminista; ao “vitimismo”; a noções caricatas como a imagem da “queima de sutiãs”; e ao pós-feminismo – uma reação que sugeria que a igualdade já havia sido alcançada e que o feminismo havia se tornado dispensável.

No século XXI, a geração do #metoo e do #niunaamenos se vê diante de novas reações nefastas, que ganham protagonismo: o pânico contra a “ideologia de gênero”, cruzadas digitais de assédio e campanhas que envolvem lideranças do backlash para restringir direitos adquiridos, como os direitos sexuais e reprodutivos.

O backlash é, portanto, um movimento sempre reativo e reacionário. Trata-se de uma articulação que emerge quando há ameaça ao status quo ou quando setores habituados a privilégios percebem perda relativa de poder e reagem para restaurar hierarquias.

No limite, é um movimento que disputa valores e deseja que abandonemos o debate sobre papéis de gênero e a luta por igualdade e deixemos que sigam vigentes visões tradicionais de família, autoridade e sexualidade.

Discurso de ódio

O backlash não é um desvio defendido por uns e outros; é um movimento de cauda longa e identificá-lo cedo evita que regressões sejam encampadas e naturalizadas. O objetivo do efeito rebote não é vencer “uma guerra cultural”, mas garantir que mudanças rumo à igualdade sejam interrompidas e que privilégios sejam restaurados.

E Faludi alerta: o backlash não é necessariamente uma reação a grandes vitórias feministas. Frequentemente, é uma reação a pequenos ganhos, que anunciam a possibilidade próxima de grandes vitórias. Pode haver algo de preventivo no efeito rebote, uma grande reação ao potencial de grandes vitórias.

O Brasil tem tantas Tainaras e tão poucas Nayaras porque é uma sociedade profundamente machista, que tem uma longa lista de problemas não resolvidos quando se trata da igualdade de gênero.

Há muito por fazer para quem quer um país livre de violência para meninas e mulheres e o Estado precisa avançar muitíssimo para que mulheres em situação de risco o vejam como fonte de acolhimento, segurança e geração de oportunidades.

São muitos os desertos de acolhimento, onde o Estado não chega ou oferece respostas aquém das necessárias para mulheres vítimas de violência. São territórios que costumam ser bolsões de misoginia, regiões onde práticas banidas nos grandes centros, como o casamento infantil, ainda se sustentam. Onde o feminismo chegou precariamente e ganhou pouco terreno.

Mas, para grande parte do país, o feminismo tem, inegavelmente, se traduzido em avanços substantivos – e a reação está em curso. Basta ver o discurso de ódio na sua roupagem mais contemporânea, que transborda as redes e autoriza violências funestas e bastante concretas nas ruas e lares brasileiros.

A soma apavorante de velhos e novos problemas faz com que tenhamos padrões que se repetem: o Brasil não faz o suficiente para proteger suas meninas e mulheres, nem antes nem depois de episódios graves de violência.

Manoela Miklos é mestre e doutora em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), ativista feminista, integrou o Programa para a América Latina da Open Society Foundations e hoje é Pesquisadora Sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Receba nossas notícias

Por favor, preencha este campo.
Por favor, preencha este campo.
Por favor, preencha este campo.
Invalid Input

O conteúdo dos textos aqui publicados não necessariamente refletem a opinião da CONIB. 

Desenvolvido por CAMEJO Estratégias em Comunicação