16.12.25 | Brasil
“Ataque antissemita na Austrália é alerta para todo o mundo”
Editorial de O Globo desta terça (15) cita dados da CONIB sobre o aumento de casos de antissemitismo: “O balanço de incidentes antissemitas da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) registrou aumentos de 255% em 2023 e 350% em 2024, na comparação com 2022 (os dados de 2025 não foram divulgados)”. E adverte: “No lugar de alimentar discurso de ódio, Brasil deve resgatar tradição de tolerância que sempre o definiu”. Leia a seguir a íntegra do texto:
Não faltou aviso para o risco de crescimento do antissemitismo na esteira da resposta israelense ao ataque terrorista do Hamas no 7 de Outubro. Em agosto passado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enviou carta ao australiano, Anthony Albanese, acusando-o de “lançar gasolina no fogo antissemita” e de “encorajar o ódio aos judeus” por atos que, dizia Netanyahu, favoreciam terroristas do Hamas. É compreensível que o morticínio e a violência dos ataques israelenses em Gaza tenham despertado uma onda de simpatia pela justa causa palestina, mas isso não pode justificar ser contra a existência de Israel. O atentado antissemita na Praia de Bondi, em Sydney, que deixou pelo menos 15 inocentes mortos numa das principais celebrações do judaísmo — a primeira noite da festa das luzes, Chanucá —, comprova que Netanyahu não falava no vazio. O ódio milenar a judeus encontrou na defesa dos palestinos um biombo atrás do qual se oculta para passar por aceitável.
Sempre é uma minoria que odeia, e uma minoria ainda menor transforma seu ódio em violência. Felizmente, há heróis como o comerciante muçulmano de origem síria Ahmed al-Ahmed, cidadão australiano, que desarmou sozinho um dos terroristas. Mas é justamente a minoria violenta que pratica o terrorismo selvagem. A leniência com o antissemitismo é salvo-conduto não somente para quem espalha o ódio, mas também para os terroristas.
O atentado em Sydney é apenas o mais recente numa série de incidentes antissemitas que vicejam em tais ambientes. Lá mesmo em Bondi, um restaurante judaico foi alvo de um ataque incendiário em 2024 e, dias depois, bombas foram lançadas contra uma sinagoga. Vândalos também atacaram bairros e uma creche de judeus australianos. Não se trata de problema restrito à Austrália. Em Manchester, Reino Unido, um terrorista esfaqueou fiéis numa sinagoga em outubro na data mais sagrada do judaísmo, o Dia do Perdão. Em Londres, no mesmo dia, uma manifestação brandindo bandeiras palestinas bradava pela decapitação de judeus. Nos Estados Unidos, uma marcha pacífica pela libertação de reféns foi alvo de lança-chamas e coquetéis molotov em Boulder, e um casal de diplomatas israelenses foi assassinado na saída de um evento judaico em Washington. Universidades americanas ainda são terreno fértil para o antissemitismo.
No Brasil, é um alento que a violência antissemita não tenha chegado a tal ponto. Mas a situação no ambiente acadêmico não é diferente. Sinal disso foi a inaceitável tentativa de censurar um palestrante pró-Israel na Faculdade de Direito da USP. O balanço de incidentes antissemitas da Confederação Israelita do Brasil (Conib) registrou aumentos de 255% em 2023 e 350% em 2024, na comparação com 2022 (os dados de 2025 não foram divulgados).
O aumento coincide com declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como a comparação absurda entre Israel e nazistas ou o abuso do termo “genocídio” ao falar em Gaza. Palavras assim fazem com que a condenação dele a ataques contra judeus soe sempre protocolar. O Brasil tem sido historicamente um país onde cristãos, muçulmanos e judeus convivem em paz. Mas o atentado em Sydney mostra que palavras e atitudes de governantes não são inócuas. Onde há condescendência, cresce o ódio. O governo precisa resgatar a tradição de tolerância e integração que sempre nos definiu.