16.12.25 | Brasil
“Atentado antissemita na Austrália evidencia a escalada da intolerância”
Em editorial, o jornal Zero Hora afirma que “o caso na Austrália deve servir como reflexão no governo brasileiro sobre as consequências das palavras”. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a invasão do território israelense pelo Hamas, em 2023, resistiu ao máximo para dizer o óbvio e chamar o ataque do grupo de ato terrorista. Não perdeu oportunidade, porém, de condenar Israel nos piores termos. Foi lamentável e reveladora ainda a decisão de retirar o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), organização dedicada ao não esquecimento do massacre de judeus pelo nazismo e ao combate ao antissemitismo global. Em setembro, Lula chegou a dizer que a comunidade judaica brasileira deveria se desculpar pela guerra em Gaza”. Leia a seguir a íntegra do texto:
O atentado terrorista de motivação antissemita que matou 15 pessoas e deixou 40 feridos na praia de Bondi, em Sydney, na Austrália, chocou pela crueldade. O massacre brutal ocorrido durante a celebração religiosa do Chanucá, no domingo, é produto direto da escalada global do antissemitismo. É dever das lideranças de cada nação atuar com responsabilidade e firmeza moral, condenando de forma contundente qualquer ato do gênero. Dubiedades já são suficientes para que a intolerância latente desperte.
O preconceito e o ódio contra judeus, pelo simples fato de serem judeus, voltaram a irromper paradoxalmente com força desde o ataque do grupo terrorista Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Em uma completa inversão de valores, os agredidos passaram a ser acusados de responsáveis pela barbárie que sofreram. Os casos de antissemitismo se multiplicaram, em especial no Ocidente, na forma de situações que podem parecer inicialmente inofensivas, como protestos em universidades, ou de atos extremos, com violência e vítimas fatais.
O episódio macabro de dois anos atrás, com assassinato de 1,2 mil inocentes – de várias nacionalidades e inclusive de três brasileiros – pela facção armada palestina, sequestro de outras 250 pessoas e esperada resposta militar de Israel, deu impulso para a aversão milenar alimentada por crendices diversas tornar a emergir. Foi a deixa para agirem oportunistas interessados também em confundir o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu governo com a totalidade dos israelenses e a comunidade judaica mundial, uma população e um grupo étnico e religioso marcados por distintas posições políticas. Foi a brecha aberta, ainda, para ressurgirem os questionamentos sobre o direito de o Estado de Israel existir.
Ao fim, cada judeu, em qualquer canto do mundo, se tornou potencialmente um alvo de fanáticos, como evidencia o atentado de domingo, perpetrado por dois atiradores muçulmanos. Os disparos voltados à multidão, que deixaram entre os mortos dois rabinos, um sobrevivente do Holocausto e uma criança, provam que a raiva é direcionada não a alguém em específico, mas ao grupo, indiscriminadamente. Quis o destino que, em uma espécie de mensagem da existência de espaço para a concórdia, um dos atiradores foi desarmado pela ação heroica de um muçulmano sírio, dono de uma fruteira na cidade. Os responsáveis pelo atentado eram pai e filho. O pai foi morto e o filho ficou ferido.
O caso na Austrália deve servir como reflexão no governo brasileiro sobre as consequências das palavras. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a invasão do território israelense pelo Hamas, em 2023, resistiu ao máximo para dizer o óbvio e chamar o ataque do grupo de ato terrorista. Não perdeu oportunidade, porém, de condenar Israel nos piores termos. Foi lamentável e reveladora ainda a decisão de retirar o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), organização dedicada ao não esquecimento do massacre de judeus pelo nazismo e ao combate ao antissemitismo global. Em setembro, Lula chegou a dizer que a comunidade judaica brasileira deveria se desculpar pela guerra em Gaza.
O massacre de domingo é o alerta de que a barbárie pode eclodir em qualquer lugar, mesmo em um país como o Brasil, onde predomina a convivência pacífica entre povos. Muito da prevenção passa pela mensagem de reprovação firme a perseguições que deve ser transmitida pelas lideranças e instituições. Quando há no mínimo hesitação, o resultado pode ser trágico.