14.01.26 | Mundo

“Protestos no Irã alimentam esperança”

Editorial de O Globo desta terça (13) aborda a atual situação no Irã e afirma que, desta vez, “alguns fatores alimentam nos opositores a esperança de um desfecho diferente”. “Primeiro, a revolta se espalha por toda a sociedade. Houve manifestações em pelo menos 340 localidades de todas as 31 províncias. A inflação passou de 40% no ano passado, o valor do rial caiu mais da metade, e as condições financeiras têm se deteriorado mesmo para quem tinha vida confortável”. Leia a seguir a íntegra do texto:

Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.

A situação está longe de definida, mas desta vez alguns fatores alimentam nos opositores a esperança de um desfecho diferente. Primeiro, a revolta se espalha por toda a sociedade. Houve manifestações em pelo menos 340 localidades de todas as 31 províncias. A inflação passou de 40% no ano passado, o valor do rial caiu mais da metade, e as condições financeiras têm se deteriorado mesmo para quem tinha vida confortável. Há racionamento de água e luz, além dos cortes de comunicações promovidos pelo governo para impedir a organização dos protestos. Grupos avessos à ação política, como grandes comerciantes, hesitam sobre continuar alheios e inertes. “A questão não é se o sistema está sob tensão, mas se mantém a coerência necessária a sobreviver”, escreveu o historiador iraniano-americano Abbas Milani. “Os próprios grupos sociais que ajudaram a colocar no poder o regime religioso se tornaram seus principais opositores.”

Segundo, o Irã está mais fraco no cenário externo. Depois dos ataques terroristas do 7 de Outubro, a força iraniana no Oriente Médio foi dizimada pela reação israelense ao Hamas em Gaza, ao Hezbollah no Líbano, aos houthis no Iêmen e ao próprio Irã, onde a Guarda Revolucionária sofreu baixas na liderança, além de as instalações militares e o programa nuclear terem sido devastados com a ajuda dos Estados Unidos. Na Síria, sem apoio do Hezbollah, o governo caiu e deu lugar a uma gestão que tem se aproximado do Ocidente. O proverbial “eixo da resistência” de que os aiatolás se vangloriavam se revelou, na prática, apenas propaganda e ilusão. Resistente a abrir suas instalações nucleares a inspeções, o Irã já não conta com a simpatia dos países europeus. Donald Trump, em declaração de mais efeito retórico que prático, afirmou estar disposto a intervir.

É verdade que a oposição está fragmentada, sem plano aparente para tomar o poder. Bandeiras da antiga monarquia foram vistas nos protestos, e Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, afirmou estar pronto para uma “transição responsável”. Os monarquistas, porém, não comandam a oposição. Em qualquer caso, a sociedade iraniana continuará em convulsão. Como afirmou à revista Variety o cineasta Jafar Panahi, preso diversas vezes pelo regime e candidato ao Oscar com “Foi apenas um acidente” (filmado escondido sob a teocracia): “Ninguém pode realmente prever quanto tempo vai levar. Pode ser um ano, um mês, uma semana. Mas um dia eles cairão”.


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